
Quase tudo deu certo
Publicado em 04 de outubro de 2026
3 de outubro de 2026 — 22h10
Essa semana foi estranha.
Não necessariamente ruim. Na verdade, aconteceram várias coisas muito boas. Mas também aconteceram algumas coisas que me fizeram parar, pensar e perceber que talvez eu esteja fazendo algumas coisas da maneira errada.
Foi uma semana de altos e baixos bem claros.
E, olhando agora para tudo o que aconteceu, acho que o melhor título seria simplesmente:
Quase tudo deu certo.
Segunda-feira
A semana começou com um dos maiores tombos que eu tive recentemente.
Eu precisava apresentar um projeto de automação com inteligência artificial que estava desenvolvendo no trabalho.
Na minha cabeça, estava tudo certo.
Na sexta-feira anterior, eu tinha conseguido fazer o projeto funcionar. Para mim, aquilo já era uma vitória enorme. Eu tinha passado dias trabalhando naquilo, aprendido várias coisas novas e, finalmente, conseguia ver o sistema respondendo.
Então cheguei na segunda-feira cheio de expectativa.
O problema é que uma coisa funcionar para mim não significa que ela esteja pronta para ser apresentada.
Durante a apresentação, o projeto simplesmente não funcionou como deveria.
E tinha gente importante ali para ver aquilo funcionando.
Foi uma merda.
Eu fiquei muito mal porque, naquele momento, parecia que todo o trabalho que eu tinha feito não valia nada. Pior ainda: fiquei com a sensação de que tinha colocado meu chefe em uma situação ruim por ter apresentado algo que ainda não estava pronto.
Depois, conversando sobre o projeto, percebi uma coisa que provavelmente vai ficar comigo por bastante tempo:
eu estava comemorando uma vitória que ainda não era a vitória que o projeto precisava.
Eu estava pensando:
“Consegui fazer funcionar.”
Enquanto a empresa precisava pensar:
“Conseguimos chegar ao resultado?”
É uma diferença pequena na frase, mas enorme na prática.
E foi justamente nessa conversa que veio outro aprendizado importante: com as ferramentas de IA que existem hoje, eu não preciso ficar preso à ideia de que tudo precisa ser construído da forma mais lenta possível.
Se uma ferramenta me permite chegar ao resultado mais rápido, eu deveria usar.
No fim, não importa quantas linhas de código eu escrevi.
Importa o que funciona.
E foi exatamente isso que fiz depois.
Consegui reorganizar o projeto, mudar algumas abordagens e, em praticamente um dia, recuperar o que eu tinha perdido.
Hoje ele está funcionando novamente.
Se eu mandar uma mensagem, ele responde.
Ainda está longe de estar pronto, claro. Mas agora existe um caminho claro para evoluir.
E, sinceramente, isso me deixou muito mais feliz do que eu esperava.
Terça-feira
Depois do tombo de segunda, veio uma das melhores coisas da semana.
Fui presencialmente conversar com um possível cliente.
A ideia inicial era falar sobre um site.
Só isso.
Mas a conversa foi crescendo.
Ele gostou do trabalho, conversamos sobre o que poderia ser melhorado e começaram a aparecer outras possibilidades: outro site, aplicativos, identidade visual e outras soluções para as empresas dele.
Saí de lá pensando:
“Caralho. Acho que isso realmente vai acontecer.”
E talvez esse tenha sido um dos momentos mais legais da semana.
Depois de passar por uma apresentação que deu errado, eu tinha acabado de conversar com alguém que olhou para um trabalho meu e falou, basicamente:
“Eu quero isso.”
Isso me deu uma confiança absurda.
Voltei para casa, fiz as alterações que ele pediu, continuei conversando e comecei a estruturar tudo que seria necessário para transformar aquela conversa em um projeto de verdade.
E aí apareceu outro problema.
Um problema que eu conheço muito bem:
eu não sei cobrar pelo meu trabalho.
O problema de colocar preço no próprio trabalho
Minha primeira ideia era cobrar um valor relativamente baixo pelos aplicativos.
Eu pensava que seria uma boa oportunidade para aprender, criar um projeto grande para o portfólio e, quem sabe, conseguir indicações depois.
Só que comecei a conversar com pessoas próximas e pesquisar melhor quanto um projeto daquele tamanho realmente representava em trabalho.
E percebi que estava subestimando completamente o que eu estava me propondo a fazer.
Não era simplesmente:
“Vou fazer um aplicativo.”
Era uma plataforma inteira.
Várias funcionalidades.
Integrações.
Painel.
Aplicativo.
Site.
Manutenção.
Infraestrutura.
Evolução.
Suporte.
Quando comecei a colocar tudo isso no papel, aquele preço que parecia razoável começou a parecer completamente absurdo.
Não para o cliente.
Para mim.
Eu estava prestes a assumir um projeto enorme cobrando um valor que provavelmente faria eu me arrepender antes mesmo de terminar.
Foi aí que comecei a entender que existe uma diferença entre fazer um preço especial para conquistar um projeto e não valorizar o próprio trabalho.
Ainda estou aprendendo essa diferença.
Quinta-feira
Na quinta-feira, voltei presencialmente para conversar sobre os aplicativos.
E aí o projeto ficou ainda maior.
A ideia era criar algo parecido com uma plataforma que já existe no mercado, adaptando para a realidade da empresa.
Foi quando comecei a entender o tamanho real daquilo.
E, junto com isso, veio outro aprendizado importante: talvez eu esteja pensando na venda do jeito errado.
Eu estava olhando para o projeto como um grande pacote.
“Dois aplicativos custam X.”
“Dois sites custam Y.”
“Identidade visual custa Z.”
E pronto.
Só que, para o cliente, olhar para uma quantidade enorme de dinheiro de uma vez pode ser completamente diferente de olhar para uma mensalidade que cabe no orçamento.
Isso me fez pensar em um modelo que eu ainda não estava explorando direito:
recorrência.
Em vez de simplesmente entregar um produto e ir embora, eu posso criar algo que a empresa realmente utilize continuamente.
Um sistema que tenha automações.
Captação de leads.
Integração com WhatsApp.
E-mail.
Notificações.
Gestão.
Comunicação com clientes.
Novas funcionalidades.
Manutenção.
Evolução.
Se aquilo se torna parte da rotina da empresa, existe valor todos os meses.
E isso é muito mais interessante para os dois lados.
O cliente não precisa necessariamente desembolsar uma fortuna de uma vez.
E eu não preciso terminar um projeto e começar imediatamente do zero procurando o próximo.
Foi provavelmente um dos maiores insights comerciais que tive nessa semana.
Talvez eu esteja pensando pequeno
A conversa também me fez perceber outra coisa.
Eu tenho uma tendência muito grande a pensar em cada projeto como um projeto isolado.
Um cliente aparece.
Eu faço alguma coisa.
Entrego.
Acabou.
Mas talvez eu possa fazer diferente.
Talvez eu possa escolher um mercado e construir uma solução que funcione especificamente para ele.
E um dos nichos que mais me chamou atenção foi justamente o de academias.
Em vez de chegar em uma academia dizendo:
“Eu faço aplicativos.”
Eu poderia chegar dizendo:
“Eu tenho uma plataforma para academias.”
E mostrar algo pronto.
Um aplicativo com a marca da academia.
Site integrado.
Pré-cadastro.
Aula experimental.
Cupons.
Venda de produtos.
Treinos.
Comunicação com professores.
Notificações.
Automação.
Integração com WhatsApp.
E várias outras funções.
A academia poderia testar.
Eu poderia ouvir o que realmente faz sentido para ela.
E então melhorar o produto.
Se funcionar em uma academia, eu melhoro.
Se funcionar em cinco, eu melhoro ainda mais.
E, quando eu tiver uma solução realmente boa, posso levar para outras academias.
Aí eu não estou mais vendendo um aplicativo do zero para cada cliente.
Estou vendendo uma solução que já existe e que pode ser personalizada.
É uma mudança pequena na forma de pensar, mas enorme na forma de fazer negócio.
Então é isso que eu vou fazer agora
Durante a próxima semana, quero montar um MVP dessa ideia.
Não quero criar o aplicativo perfeito.
Quero criar algo que funcione.
Quero chegar em uma academia e conseguir falar:
“Aqui. Usa por alguns dias.”
E deixar a pessoa experimentar.
Quero entender onde ela clica.
O que ela procura.
O que ela acha inútil.
O que ela gostaria de ter.
O que realmente resolveria um problema.
E depois melhorar.
Minha ideia é começar a visitar academias pessoalmente e apresentar o produto.
Uma por uma.
Sem depender exclusivamente de mensagem no Instagram ou WhatsApp.
Se eu conseguir validar a ideia, quero transformar isso em um serviço recorrente.
Inclusive, estou pensando em utilizar parte do dinheiro dos projetos atuais para estruturar as contas necessárias e conseguir oferecer os aplicativos de maneira mais profissional.
Quero que isso seja algo que dure.
Não quero simplesmente ganhar dinheiro com um projeto.
Quero construir alguma coisa que continue gerando valor.
Enquanto isso, eu continuo fazendo coisas demais
Como se já não tivesse projeto suficiente, eu também estou trabalhando em algumas coisas pessoais.
Uma delas é um sistema que estou construindo para organizar praticamente toda a minha vida.
Metas.
Tarefas.
Projetos.
Trabalho.
Estudos.
Planejamento.
Kanban.
Um monte de coisa.
O front-end já está bem encaminhado e, sinceramente, eu gostei bastante do resultado.
A ideia é construir o sistema usando principalmente Go e Python, dentro de um monorepo grande.
Provavelmente vou levar uns 200 anos para terminar.
Mas tudo bem.
Eu não estou fazendo isso apenas para ter uma ferramenta de organização.
Estou fazendo para aprender.
Cada CRUD, cada API, cada banco de dados, cada decisão de arquitetura e cada problema que aparecer vai ser parte do meu aprendizado.
Eu poderia simplesmente pagar por uma ferramenta pronta.
Mas construir a minha própria vai me obrigar a entender como tudo funciona.
E é justamente isso que eu quero.
Também comecei um projeto muito mais ambicioso: um navegador.
Esse está bem no começo e ainda estou tentando entender muita coisa da arquitetura.
É um projeto grande.
Talvez grande demais para o meu nível atual.
Mas é justamente por isso que achei interessante.
Não sei ainda exatamente onde ele vai chegar.
E, honestamente, acho que essa é uma das partes mais legais de construir alguma coisa.
Sexta-feira
Na sexta, eu estava novamente olhando para a proposta daquele cliente.
Dessa vez, com outra cabeça.
Não estava mais pensando apenas:
“Quanto eu consigo cobrar?”
Estava pensando:
“Como eu consigo criar algo que faça sentido para os dois lados?”
Essa mudança parece pequena, mas para mim foi enorme.
Eu ainda não sei se esse projeto vai fechar.
Talvez feche.
Talvez não.
Talvez ele queira apenas os sites.
Talvez queira os aplicativos.
Talvez tudo.
E tudo bem.
Porque, mesmo que não aconteça, eu já saí dessa semana com algo que não tinha quando ela começou.
Uma visão um pouco melhor sobre como vender meu trabalho.
Como precificar.
Como apresentar.
Como criar produtos.
Como escolher um nicho.
Como pensar em recorrência.
E, principalmente, como lidar com a sensação de que eu preciso provar o tempo inteiro que sou capaz.
Agora são 22h10
E eu estou aqui terminando mais um site para esse mesmo cliente.
Um deles já está pronto.
O outro estou terminando agora para apresentar na segunda-feira.
Também tenho outro site praticamente pronto para apresentar a uma empresa que venho adiando visitar.
E essa talvez seja a parte mais engraçada de tudo.
Eu sei que preciso ir.
O site está pronto.
Está bonito.
Eu sei fazer o trabalho.
Eu sei apresentar.
Mas ainda existe aquela voz dizendo:
“E se der errado?”
Só que talvez eu esteja começando a entender que essa pergunta não vai desaparecer.
Eu vou continuar sentindo medo.
Vou continuar achando que estou cobrando caro demais.
Vou continuar pensando que talvez meu trabalho não seja bom o suficiente.
Vou continuar tendo projetos que quebram na hora de apresentar.
Vou continuar ouvindo não.
A diferença é que agora eu quero fazer mesmo assim.
Porque, olhando para essa semana inteira, percebi uma coisa.
Na segunda-feira, eu achei que tinha fracassado.
Na terça-feira, achei que tinha encontrado uma oportunidade enorme.
Na quinta-feira, percebi que ainda não sabia vender direito.
Na sexta-feira, comecei a entender melhor como quero trabalhar daqui para frente.
E agora, no sábado à noite, estou sentado terminando mais um projeto enquanto penso nos próximos três.
Foi uma semana confusa.
Mas foi uma semana boa.
Quase tudo deu certo.
E talvez o que não deu certo tenha sido justamente a parte que eu mais precisava aprender.